Artigo 1 de 3 — O Futuro da Energia
E se um dos maiores desafios energéticos dos próximos dez anos não for produzir mais energia, mas aprender a administrar inteligentemente tudo aquilo que seremos capazes de produzir?
Essa pergunta ganhou força para nós nos últimos dias.
Há dois anos, tivemos na Ação Consultoria a oportunidade de mediar a construção do ciclo de Planejamento Estratégico 2025–2026 da UTC América Latina — UTC América Latina (UTCAL) organização que reúne importantes empresas de utilities e de tecnologia e atua justamente em uma fronteira que se torna cada vez mais estratégica: a convergência entre energia, telecomunicações e tecnologia.
Nesta semana, ao sermos novamente procurados para discutir a construção do próximo ciclo estratégico, 2027–2028, voltamos a mergulhar nesse universo.
E algo nos chamou particularmente a atenção.
Alguns assuntos que, há apenas dois anos, eram tratados predominantemente como tendências estão rapidamente se transformando em desafios concretos de operação, investimento, regulação e estratégia.
Foi dessa inquietação que nasceu esta trilogia.
Durante três semanas, quero explorar uma pergunta aparentemente simples:
Como será a infraestrutura energética capaz de sustentar a economia que estamos construindo?
Um país privilegiado diante de um novo problema
O Brasil chega a essa transformação em posição privilegiada.
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 projeta que nossa capacidade instalada de geração elétrica deverá passar dos atuais 255 GW para aproximadamente 367 GW em 2035.
São mais de 110 GW adicionais em apenas uma década.
E mais de 85% da geração elétrica brasileira deverá continuar proveniente de fontes renováveis.
Poucos países possuem uma combinação semelhante de água, vento, sol, biomassa e dimensão territorial. Durante décadas, isso nos levou a uma pergunta fundamental:
Como produzir energia suficiente para acompanhar o crescimento do país?
Essa pergunta continuará existindo.
Mas outra começa a dividir espaço com ela:
Como administrar um sistema no qual cada vez mais energia é produzida em lugares diferentes, por fontes diferentes e em momentos que nem sempre coincidem com a necessidade de consumo?
Porque produzir mais capacidade não significa, automaticamente, conseguir aproveitar toda a energia disponível.
O paradoxo da abundância
O próprio Operador Nacional do Sistema começa a enxergar esse desafio.
Nas projeções para os próximos anos, a crescente combinação de geração solar, eólica e micro e minigeração distribuída poderá produzir situações em que haverá mais energia disponível do que o sistema consegue absorver naquele momento.
Nos cenários mais críticos, os cortes de geração renovável — o chamado curtailment — podem superar 50 GW durante determinados períodos do dia, especialmente em fins de semana e feriados.
Vale pensar no que isso significa.
O Brasil pode chegar ao paradoxo de ter energia renovável disponível e precisar mandar parte dela parar de produzir.
Durante décadas, preocupamo-nos com a falta de energia.
Agora precisamos aprender também a lidar com momentos de excesso.
Talvez estejamos diante de uma mudança histórica de pergunta.
✔ De: Como gerar mais energia?
✔ Para: Como aproveitar melhor toda a energia que conseguimos gerar?
O problema deixa de ser apenas gerar.
Passa a ser também armazenar, distribuir, prever e, sobretudo, coordenar.
A rede elétrica para a qual caminhamos será muito diferente daquela que conhecemos
Imagine por alguns instantes o sistema elétrico dos próximos anos.
Continuaremos tendo grandes hidrelétricas, parques eólicos e solares, linhas de transmissão e redes de distribuição.
Mas teremos também milhões de residências e empresas produzindo sua própria energia.
Baterias armazenando eletricidade nos momentos de abundância e devolvendo-a quando necessária.
Veículos elétricos conectados à rede.
Indústrias adaptando seu consumo conforme disponibilidade e preço.
Medidores inteligentes, sensores e algoritmos acompanhando o comportamento do sistema praticamente em tempo real.
E data centers consumindo volumes crescentes de eletricidade para sustentar serviços digitais, cloud computing e inteligência artificial.
O tradicional fluxo:
GERAÇÃO → TRANSMISSÃO → DISTRIBUIÇÃO → CONSUMIDOR, começa a dar lugar a algo muito mais complexo.
✔ Consumidores tornam-se também produtores.
✔ Baterias ora consomem, ora fornecem.
✔ Veículos podem funcionar como cargas e, potencialmente, como armazenamento.
✔ Equipamentos começam a conversar entre si.
E decisões que antes podiam ser tomadas em intervalos relativamente longos precisam acontecer cada vez mais rapidamente.
A rede deixa, portanto, de ser apenas uma gigantesca infraestrutura física.
Ela passa a ser também uma gigantesca infraestrutura digital.
É aqui que energia encontra telecomunicações
Para administrar essa nova complexidade, não basta saber onde está a eletricidade.
É preciso saber, praticamente em tempo real, quanto está sendo produzido e consumido, onde estão os gargalos, onde existe capacidade disponível, quanto pode ser armazenado, quando uma bateria deve carregar ou descarregar, quando determinada demanda pode ser deslocada e onde começam a surgir riscos para o sistema.
A rede elétrica passa também a ser uma enorme rede de informação.
Talvez essa seja uma das transformações mais importantes — e ainda menos percebidas — do setor:
no sistema energético do futuro, transmitir dados poderá ser quase tão estratégico quanto transmitir elétrons.
Não por acaso, a União Europeia passou a tratar a digitalização como condição para a própria transição energética.
Redes e medidores inteligentes, IoT, conectividade, compartilhamento seguro de dados, inteligência artificial e gêmeos digitais começam a integrar a arquitetura de um sistema criado originalmente para um mundo centralizado, mas que agora precisa funcionar com milhões de ativos distribuídos, consumidores ativos e fontes variáveis.
E o Brasil já começou a fazer esse movimento
Em 2026, alguns sinais tornaram-se especialmente claros.
Avançaram a regulamentação e as discussões para contratação de sistemas de armazenamento em grande escala, assim como o debate sobre medidores inteligentes, resposta da demanda, comercialização e abertura do mercado de energia.
Não estamos mais falando apenas de possibilidades tecnológicas.
Estamos começando a construir a arquitetura do novo sistema elétrico.
E existe uma palavra que deverá aparecer cada vez mais nesse debate:
FLEXIBILIDADE
Baterias não criam uma nova fonte de energia. Mas permitem guardar eletricidade quando há abundância e devolvê-la quando existe necessidade.
Consumidores também poderão oferecer flexibilidade, deslocando parte de sua demanda.
Dados permitirão antecipar acontecimentos.
Automação possibilitará respostas cada vez mais rápidas.
A Agência Internacional de Energia aponta justamente esse desafio: o crescimento da geração solar e eólica precisa ser acompanhado pela expansão das redes e dos mecanismos de flexibilidade necessários para integrá-las plenamente.
Mas existe outro lado dessa transformação.
Enquanto a oferta muda, a demanda também está sendo reinventada
Estamos entrando no que a Agência Internacional de Energia chama de “Era da Eletricidade”.
A demanda mundial por energia elétrica deverá crescer, em média, 3,6% ao ano entre 2026 e 2030.
Indústria, veículos elétricos, climatização, digitalização e data centers estarão entre os motores desse crescimento.
E a inteligência artificial traz consigo um paradoxo especialmente interessante.
Ela poderá ser uma das principais ferramentas para tornar o sistema energético mais inteligente.
Mas será, simultaneamente, uma importante responsável pelo crescimento do consumo de eletricidade.
Nos Estados Unidos, aproximadamente metade do aumento previsto da demanda elétrica até 2030 deverá vir da expansão dos data centers.
A tecnologia que ajudará a administrar a rede também exigirá mais da própria rede.
Da potência para a inteligência
Depois de mais de quatro décadas acompanhando organizações, estratégias e transformações empresariais, aprendi a desconfiar de mudanças que se apresentam apenas como tecnológicas.
Quase nunca são.
Quando uma tecnologia muda a forma como recursos são produzidos, distribuídos, consumidos e compartilhados, ela acaba mudando também modelos de negócio, competências, relações entre empresas, decisões de investimento e, inevitavelmente, a própria estratégia.
É isso que me parece estar acontecendo agora com a energia.
Durante boa parte da história do setor elétrico, capacidade foi sinônimo de segurança.
Quantos megawatts conseguimos gerar?
Quantas linhas conseguimos construir?
Qual é nossa capacidade de transmissão?
Essas perguntas continuarão fundamentais.
Mas talvez precisemos acrescentar outras:
Quanto conseguimos enxergar?
Quanto conseguimos prever?
Quanto conseguimos armazenar?
Quanto conseguimos coordenar?
Quanto conseguimos proteger?
Talvez o próximo grande ativo estratégico do sistema energético não seja apenas a capacidade instalada.
Seja a capacidade de coordenação.
É nessa fronteira que energia, telecomunicações, tecnologia, dados, inteligência artificial e cibersegurança começam a se encontrar.
E talvez isso explique por que organizações de utilities e gigantes globais de telecomunicações e tecnologia estão cada vez mais sentadas à mesma mesa.
O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do planeta.
➜ Possuímos água.
➜ Possuímos vento.
➜ Possuímos sol.
O próximo diferencial poderá estar em nossa capacidade de transformar essa abundância em um sistema cada vez mais flexível, conectado, resiliente e inteligente.
Porque a energia do futuro continuará percorrendo fios, cabos e linhas de transmissão.
Mas será cada vez mais a informação que dirá a ela para onde ir, quando chegar e como manter todo o sistema em equilíbrio.
No próximo artigo desta trilogia:
Quando a rede começa a pensar
Se a nova infraestrutura energética precisará enxergar, prever, comunicar e reagir praticamente em tempo real, qual será o papel da inteligência artificial, das telecomunicações, dos sensores, das redes privativas, do armazenamento e da cibersegurança?
E existe uma pergunta ainda mais provocadora:
O que acontece quando a inteligência que ajudará a economizar e administrar energia passa também a ser uma das maiores responsáveis pelo aumento de seu consumo?
Sua empresa está pronta para navegar pela transição da potência para a inteligência estratégica?
Na Ação Consultoria, ajudamos lideranças e conselhos a traduzir grandes transformações de mercado em planejamentos estratégicos claros, flexíveis e orientados a resultados.
➜ Planejamento Estratégico
Alex Müller
Especialista em Negócios Ação Consultoria